{"id":5528,"date":"2020-01-17T13:17:54","date_gmt":"2020-01-17T16:17:54","guid":{"rendered":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/?p=5528"},"modified":"2020-01-17T10:19:26","modified_gmt":"2020-01-17T13:19:26","slug":"com-lei-anticrime-juiz-ainda-pode-condenar-mesmo-que-mp-peca-absolvicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/2020\/01\/17\/com-lei-anticrime-juiz-ainda-pode-condenar-mesmo-que-mp-peca-absolvicao\/","title":{"rendered":"Com lei &#8220;anticrime&#8221;, juiz ainda pode condenar mesmo que MP pe\u00e7a absolvi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Ainda que tenha feito uma s\u00e9rie de reformas no C\u00f3digo de Processo Penal e no C\u00f3digo Penal, a&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2019-2022\/2019\/lei\/L13964.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Lei 13.964\/19<\/a>, conhecida como lei &#8220;anticrime&#8221;, n\u00e3o modificou o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.jusbrasil.com.br\/topicos\/10643811\/artigo-385-do-decreto-lei-n-3689-de-03-de-outubro-de-1941\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">artigo 385 do CPP<\/a>. O trecho, que \u00e9 alvo de cr\u00edticas por parte de advogados e juristas, permite que o r\u00e9u seja condenado mesmo que o Minist\u00e9rio P\u00fablico&nbsp;se manifeste a favor da absolvi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/img\/b\/abuso-autoridade-juiz-judiciario.jpeg\" alt=\"\"\/><figcaption>Para especialistas, artigo 385 do C\u00f3digo de Processo Penal \u00e9 inconstitucional<br><sup>pin65&#8217;s\/Reprodu\u00e7\u00e3o<\/sup><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Essa possibilidade de condena\u00e7\u00e3o vem sendo justificada com base no princ\u00edpio da indisponibilidade da a\u00e7\u00e3o penal, prevista pelo artigo 42 do CPP. Segundo esse&nbsp;dispositivo, o &#8220;Minist\u00e9rio P\u00fablico n\u00e3o pode desistir da a\u00e7\u00e3o penal&#8221;. Assim, se ap\u00f3s o oferecimento da den\u00fancia o MP se manifestar pela absolvi\u00e7\u00e3o, a a\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 indispon\u00edvel, o que permite ao juiz condenar o r\u00e9u, mesmo com a mudan\u00e7a de entendimento por parte do MP.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2016, durante o julgamento do Recurso Especial 1.612.551,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/2019-out-19\/opiniao-acusado-condenado-pgjd-desistir-denuncia\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o MPF se posicionou<\/a>&nbsp;no Superior Tribunal de Justi\u00e7a contra a efic\u00e1cia do artigo. Segundo o parecer, o dispositivo n\u00e3o foi recepcionado pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/p>\n\n\n\n<p>Na ementa da&nbsp;A\u00e7\u00e3o Penal 960, a 1\u00aa Turma do Supremo Tribunal Federal registrou que o juiz n\u00e3o pode condenar quando o MP pedir a absolvi\u00e7\u00e3o. &#8220;Mas os votos n\u00e3o trabalharam essa quest\u00e3o&#8221;, afirma o criminalista&nbsp;<strong>Alberto Toron<\/strong>. De todo modo, como n\u00e3o havia&nbsp;efeitos&nbsp;<em>erga omnes<\/em>, o artigo 385 continuou a ser aplicado.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com especialistas ouvidos pela&nbsp;<strong>ConJur<\/strong>, o dispositivo n\u00e3o reflete o modelo de acusa\u00e7\u00e3o implementado pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, representando um resqu\u00edcio do arcaico sistema inquisit\u00f3rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para a advogada criminalista<strong>&nbsp;Joyce Roysen<\/strong>, &#8220;ao manter o artigo 385 do CPP em sua reda\u00e7\u00e3o atual, o legislador perdeu uma oportunidade de realizar uma nova altera\u00e7\u00e3o legislativa que caminhasse em dire\u00e7\u00e3o a um processo efetivamente acusat\u00f3rio e, portanto, em conformidade com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988&#8221;. Assim, tendo em vista que as inova\u00e7\u00f5es trazidas no pacote &#8216;anticrime&#8217; tendem a limitar decis\u00f5es de of\u00edcio por parte dos magistrados, &#8220;caber\u00e1 aos tribunais, uma vez mais, analisar se o artigo permaneceria compat\u00edvel com o sistema processual adotado no pa\u00eds&#8221;, diz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para&nbsp;<strong>Raquel Lima Scalcon<\/strong>, advogada e professora de Direito Penal na Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, &#8220;o artigo 385 do CPP h\u00e1 muito tempo tem sua constitucionalidade questionada pela doutrina processual penal&#8221;. &#8220;Ele \u00e9 um resqu\u00edcio inquisit\u00f3rio de um modelo que, ap\u00f3s a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, rumou para o sistema acusat\u00f3rio&#8221;, afirma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Scalcon explica que, no modelo vigente, as fun\u00e7\u00f5es e compet\u00eancias devem ser definidas de modo estrito, sendo uma &#8220;patologia&#8221;&nbsp;admitir que o juiz possa condenar quando o \u00f3rg\u00e3o acusador, que exerce a pretens\u00e3o punitiva, pede a absolvi\u00e7\u00e3o. &#8220;Perdemos uma importante oportunidade para revogar expressamente o artigo 385 do CPP, j\u00e1 que outras mudan\u00e7as similares foram introduzidas&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>O promotor de Justi\u00e7a de Araguari (MG)&nbsp;<strong>Andr\u00e9 Lu\u00eds Alves de Melo<\/strong>&nbsp;tem opini\u00e3o similar. De acordo com ele, o artigo 385, &#8220;apesar de inconstitucional, ainda \u00e9 validado pela jurisprud\u00eancia legalista&#8221;. &#8220;Melhor que fosse revogado ou alterado, assim como os artigos 24 e 42 do CPP, para que o processo penal focasse nos casos mais relevantes e efetivamente em um processo conforme a Constitui\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma.<\/p><div class=\"cbhxs69e052fcd2762\" ><!--<a href=\"https:\/\/bit.ly\/3QdrqTZ\" target=\"_blank\">\n<img src=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mobile-geral.gif\"\/><a\/>--><\/div><style type=\"text\/css\">\r\n.cbhxs69e052fcd2762 {\r\ntext-align: center;\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 1201px) {\r\n.cbhxs69e052fcd2762 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 993px) and (max-width: 1200px) {\r\n.cbhxs69e052fcd2762 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 769px) and (max-width: 992px) {\r\n.cbhxs69e052fcd2762 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 768px) and (max-width: 768px) {\r\n.cbhxs69e052fcd2762 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (max-width: 767px) {\r\n.cbhxs69e052fcd2762 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n<\/style>\r\n<div class=\"jwjut69e052fcd274c\" ><!--<a href=\"https:\/\/bit.ly\/3QdrqTZ\" target=\"_blank\">\n<img src=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/desktop-geral.gif\"\/><a\/>--><\/div><style type=\"text\/css\">\r\n.jwjut69e052fcd274c {\r\ntext-align: center;\nmargin-bottom: 1em;\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 1201px) {\r\n.jwjut69e052fcd274c {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 993px) and (max-width: 1200px) {\r\n.jwjut69e052fcd274c {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 769px) and (max-width: 992px) {\r\n.jwjut69e052fcd274c {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 768px) and (max-width: 768px) {\r\n.jwjut69e052fcd274c {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (max-width: 767px) {\r\n.jwjut69e052fcd274c {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n<\/style>\r\n\n\n\n\n<p>Para&nbsp;<strong>Luiza Oliver<\/strong>, s\u00f3cia do escrit\u00f3rio Toron, Torihara e Cunha Advogados, havendo pedido de absolvi\u00e7\u00e3o por parte do MP, desaparece o interesse de agir, que \u00e9 condi\u00e7\u00e3o essencial da a\u00e7\u00e3o. &#8220;Assim, o artigo 385 do CPP possibilita que os poderes acusat\u00f3rios e decis\u00f3rios sejam unidos na pessoa do juiz, o que \u00e9 completamente incompat\u00edvel com o sistema acusat\u00f3rio e com o princ\u00edpio da imparcialidade do magistrado&#8221;, diz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para&nbsp;<strong>&nbsp;Toron<\/strong>, no entanto, &#8220;\u00e9 preciso deixar bem claro que \u00e9 falsa&nbsp;a ideia de que a Constitui\u00e7\u00e3o adotou um sistema puramente acusat\u00f3rio&#8221;. Ele lembra que a reforma de 2008 no CPP alterou o artigo 156, incluindo inciso II, segundo o qual&nbsp;o juiz, de of\u00edcio, na fase investigat\u00f3ria, pode ordenar dilig\u00eancias que entenda pertinentes para a apura\u00e7\u00e3o do caso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para a advogada&nbsp;<strong>Fl\u00e1via Rahal<\/strong>, especialista em Direito Penal, &#8220;a atual reda\u00e7\u00e3o do artigo 385 representa um apego do legislador ao modelo inquisitivo, no qual o juiz se afasta da necess\u00e1ria imparcialidade que deve conduzir suas a\u00e7\u00f5es para avan\u00e7ar no exerc\u00edcio de uma pretens\u00e3o punitiva, cuja titularidade \u00e9 exclusiva do MP&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela afirma que os pa\u00edses democr\u00e1ticos que respeitam as liberdades e direitos individuais &#8220;j\u00e1 adotam o sistema puramente acusat\u00f3rio, no qual cabe ao juiz&nbsp;apenas julgar dentro dos limites da pretens\u00e3o acusat\u00f3ria&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Revoga\u00e7\u00e3o t\u00e1cita<\/strong><br>Segundo a advogada criminalista<strong>&nbsp;Paula Sion<\/strong>, s\u00f3cia do Cavalcanti, Sion e Salles Advogados, a lei &#8220;anticrime&#8221;&nbsp;alterou o artigo 3\u00ba do CPP para estabelecer que o processo penal p\u00e1trio tem estrutura acusat\u00f3ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nesse sentido, o artigo 385 do CPP est\u00e1 em disson\u00e2ncia com o novo modelo e deveria, sim, ter sido objeto de revoga\u00e7\u00e3o na promulga\u00e7\u00e3o da nova lei. Se as partes est\u00e3o de acordo que n\u00e3o deve haver condena\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode o juiz condenar. A meu ver, n\u00e3o s\u00f3 este como qualquer outro dispositivo que atente contra o sistema acusat\u00f3rio deve ser considerado tacitamente revogado com a entrada em vigor do artigo 3\u00ba, A, do CPP&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Princ\u00edpio de congru\u00eancia<\/strong><br>Para a advogada criminalista&nbsp;<strong>Mait\u00ea Cazeto Lopes,&nbsp;<\/strong>o artigo 385 do CPP, em especial no que se refere ao reconhecimento das agravantes n\u00e3o alegadas na den\u00fancia, afronta o princ\u00edpio da congru\u00eancia, sendo inconstitucional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;At\u00e9 mesmo o decreto condenat\u00f3rio diante do pedido de absolvi\u00e7\u00e3o n\u00e3o condiz com as premissas constitucionais da Carta de 1988, que elegeu o Minist\u00e9rio P\u00fablico o titular da a\u00e7\u00e3o penal p\u00fablica (<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.senado.leg.br\/atividade\/const\/con1988\/con1988_14.12.2017\/art_129_.asp\" target=\"_blank\">artigo 129<\/a>, I, CF). Sem requerimentos de condena\u00e7\u00e3o pelo leg\u00edtimo interessado n\u00e3o poderia o magistrado, a despeito de\u00a0convic\u00e7\u00e3o diversa,\u00a0substituir o acusador e proferir a senten\u00e7a condenat\u00f3ria&#8221;, diz ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Conjur<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O trecho, que \u00e9 alvo de cr\u00edticas por parte de advogados e juristas, permite que o r\u00e9u seja condenado mesmo que o Minist\u00e9rio P\u00fablico se manifeste a favor da absolvi\u00e7\u00e3o<br \/><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/2020\/01\/17\/com-lei-anticrime-juiz-ainda-pode-condenar-mesmo-que-mp-peca-absolvicao\/\">Mais&#8230;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":1055,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5528"}],"collection":[{"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5528"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5528\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5529,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5528\/revisions\/5529"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1055"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5528"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5528"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5528"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}