{"id":31022,"date":"2023-03-23T09:40:00","date_gmt":"2023-03-23T12:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/?p=31022"},"modified":"2023-03-22T22:41:42","modified_gmt":"2023-03-23T01:41:42","slug":"justica-autoriza-inclusao-de-multa-de-r-180-mil-por-traicao-em-pacto-antenupcial-de-casal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/2023\/03\/23\/justica-autoriza-inclusao-de-multa-de-r-180-mil-por-traicao-em-pacto-antenupcial-de-casal\/","title":{"rendered":"Justi\u00e7a autoriza inclus\u00e3o de multa de R$ 180 mil por trai\u00e7\u00e3o em pacto antenupcial de casal"},"content":{"rendered":"\n<p>Embora pare\u00e7a estranha, \u00e9 leg\u00edtima a pretens\u00e3o de um casal de fixar multa para o caso de infidelidade em um pacto antenupcial. O C\u00f3digo Civil Brasileiro j\u00e1 prev\u00ea o dever de fidelidade, e a cl\u00e1usula penal serve, nesse contexto, para refor\u00e7ar o cumprimento do dever.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/img\/b\/traicao-alianca-divorcio.jpeg\" alt=\"\"\/><figcaption><sup>Freepik<\/sup>Casal tem liberdade para fixar termos de pacto antenupcial<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o poder p\u00fablico deve exercer a m\u00ednima interfer\u00eancia poss\u00edvel na esfera privada. Assim, o pacto antenupcial, como fruto da delibera\u00e7\u00e3o conjunta do casal e da autonomia privada, serve para que eles escolham termos que melhor se adequem \u00e0 vida que escolheram levar a dois.<\/p>\n\n\n\n<p>Com essa justificativa, a ju\u00edza Maria Luiza de Andrade Rangel Pires, da Vara de Registros P\u00fablicos da Comarca de Belo Horizonte, julgou improcedente a d\u00favida suscitada por uma tabeli\u00e3 do cart\u00f3rio de registro Civil e Notas na capital mineira e autorizou a lavratura de um pacto antenupcial com cl\u00e1usula penal que estabelece multa de R$ 180 mil em caso de eventual trai\u00e7\u00e3o de qualquer uma das partes.<ins><\/ins><\/p>\n\n\n\n<p>A ju\u00edza destacou, ainda, que o acordo \u00e9 um neg\u00f3cio jur\u00eddico, que n\u00e3o impede que sejam previstas regras extrapatrimoniais, desde que n\u00e3o sejam contr\u00e1rias \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com os autos, uma oficial do cart\u00f3rio havia levantado &#8220;d\u00favida registral&#8221; a respeito de&nbsp;um requerimento do casal durante o procedimento de habilita\u00e7\u00e3o de casamento com op\u00e7\u00e3o pelo regime de separa\u00e7\u00e3o de bens.<\/p>\n\n\n\n<p>A tabeli\u00e3 rejeitou parte do conte\u00fado do pacto antenupcial por considerar que esse instrumento&nbsp;&#8220;deve se restringir a tratar do regime de bens entre os c\u00f4njuges&#8221;.&nbsp;O casal, inconformado, recorreu \u00e0 Justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua senten\u00e7a, a ju\u00edza deixa claro&nbsp;que a exig\u00eancia do casal n\u00e3o contraria as leis brasileiras, j\u00e1 que o dever de fidelidade m\u00fatua tamb\u00e9m \u00e9 previsto no C\u00f3digo Civil Brasileiro \u2014 artigo 1.566, inciso I. Segundo ela, a multa como puni\u00e7\u00e3o somente refor\u00e7aria o cumprimento desse dever.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A quest\u00e3o da possibilidade de tal inclus\u00e3o \u00e9 bastante controvertida e tem suscitado discuss\u00f5es no meio doutrin\u00e1rio, parecendo-me mais adequada, a par dos substanciosos argumentos apresentados pela zelosa Tabeli\u00e3, a posi\u00e7\u00e3o daqueles que a admitem. \u00c9 que o pacto possui natureza de neg\u00f3cio jur\u00eddico, de modo que, embora seu conte\u00fado primordial seja mesmo patrimonial, acerca do regime de bens adotado pelo casal, nada obsta que possam os nubentes tamb\u00e9m, no referido instrumento, estabelecer ajustes extrapatrimoniais, desde que n\u00e3o contr\u00e1rios \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o brasileira&#8221;, sustentou a ju\u00edza Maria Luiza em sua decis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O pacto antenupcial nos moldes pretendidos pelo casal, explica a magistrada, deve observar as balizas impostas pelo artigo 104 do C\u00f3digo Civil, quais sejam, a de ter partes capazes, objeto l\u00edcito e forma legal.<\/p>\n\n\n\n<p>Para sustentar tal decis\u00e3o, ela cita Maria Berenice Dias, autora do&nbsp;<em>Manual de Direito das Fam\u00edlias<\/em>,&nbsp;que aponta a inexist\u00eancia de impedimento para que as pessoas que v\u00e3o se casar&nbsp;determinem, tamb\u00e9m, quest\u00f5es de natureza n\u00e3o patrimonial, uma vez que o exerc\u00edcio da autonomia privada das partes encontraria limita\u00e7\u00e3o apenas na lei.<\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo sentido, Rodrigo da Cunha Pereira, presidente do Instituto Brasileiro de Direito da Fam\u00edlia (IBDFAM), em artigo publicado em 17\/10\/22, sob o t\u00edtulo &#8220;Cl\u00e1usulas existenciais em pactos antenupciais e contratos em direito de fam\u00edlia \u2014&nbsp;o &#8216;debitum&#8217; e o cr\u00e9dito conjugal&#8221;, pontuou que &#8220;com o realce e valoriza\u00e7\u00e3o da autonomia privada, come\u00e7am a fazer parte de nossa realidade jur\u00eddica, as cl\u00e1usulas existenciais nos pactos antenupciais, como j\u00e1 acontece em outros pa\u00edses. Se tais cl\u00e1usulas n\u00e3o ferem a ordem p\u00fablica, elas ter\u00e3o validade e efic\u00e1cia&#8221;.<\/p><div class=\"idgxh69d3f88a097fc\" ><!--<a href=\"https:\/\/bit.ly\/3QdrqTZ\" target=\"_blank\">\n<img src=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mobile-geral.gif\"\/><a\/>--><\/div><style type=\"text\/css\">\r\n.idgxh69d3f88a097fc {\r\ntext-align: center;\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 1201px) {\r\n.idgxh69d3f88a097fc {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 993px) and (max-width: 1200px) {\r\n.idgxh69d3f88a097fc {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 769px) and (max-width: 992px) {\r\n.idgxh69d3f88a097fc {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 768px) and (max-width: 768px) {\r\n.idgxh69d3f88a097fc {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (max-width: 767px) {\r\n.idgxh69d3f88a097fc {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n<\/style>\r\n<div class=\"taogg69d3f88a097de\" ><!--<a href=\"https:\/\/bit.ly\/3QdrqTZ\" target=\"_blank\">\n<img src=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/desktop-geral.gif\"\/><a\/>--><\/div><style type=\"text\/css\">\r\n.taogg69d3f88a097de {\r\ntext-align: center;\nmargin-bottom: 1em;\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 1201px) {\r\n.taogg69d3f88a097de {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 993px) and (max-width: 1200px) {\r\n.taogg69d3f88a097de {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 769px) and (max-width: 992px) {\r\n.taogg69d3f88a097de {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 768px) and (max-width: 768px) {\r\n.taogg69d3f88a097de {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (max-width: 767px) {\r\n.taogg69d3f88a097de {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n<\/style>\r\n\n\n\n\n<p>Ainda a corroborar essa posi\u00e7\u00e3o, h\u00e1 o Enunciado 635 da VIII Jornada de Direito Civil, promovida pelo Centro de Estudos Judici\u00e1rios do Conselho da Justi\u00e7a Federal: &#8220;O pacto antenupcial e o contrato de conviv\u00eancia podem conter cl\u00e1usulas existenciais, desde que estas n\u00e3o violem os princ\u00edpios da dignidade humana, da igualdade entre os c\u00f4njuges e da solidariedade familiar.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O Minist\u00e9rio P\u00fablico havia se manifestado apenas pelo regular prosseguimento do feito.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pacto antenupcial<\/strong><br>O pacto antenupcial \u00e9 uma ferramenta importante no contexto do planejamento sucess\u00f3rio, uma vez que permite \u00e0s partes adotar um regime de bens diferente da comunh\u00e3o parcial, que \u00e9 aquele que a lei determina como o regime legal, que ser\u00e1 aplic\u00e1vel em caso de sil\u00eancio das partes nesse sentido (art. 1.640, caput e \u00a7 \u00fanico, do C\u00f3digo Civil \u2013 &#8220;CC&#8221;), de acordo com&nbsp;<strong>Marcelo Paolini<\/strong>, do escrit\u00f3rio L.O. Baptista.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, um pacto antenupcial com fixa\u00e7\u00e3o de multa em caso de trai\u00e7\u00e3o, conforme o caso mineiro, \u00e9 praticamente uma novidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Esse tipo de pacto \u00e9 incomum. Mas temos assessorado clientes, cada vez mais, na elabora\u00e7\u00e3o de pactos mais arrojados, como por exemplo aqueles dispondo sobre regimes de casamento h\u00edbridos, ou seja, escolhendo outros regimes que n\u00e3o est\u00e3o previstos em lei \u2014 comunh\u00e3o parcial de bens, comunh\u00e3o universal de bens, separa\u00e7\u00e3o total de bens e participa\u00e7\u00e3o final nos aquestos. Ou mesmo dispondo sobre pagamento de alimentos de um c\u00f4njuge a outro, em bases que aumentam \u00e0 medida em que o casamento dura mais tempo, ou que o casal tenha mais filhos. As pessoas est\u00e3o buscando maior criatividade e maiores regras, para os pactos antenupciais, a exemplo do que j\u00e1 ocorre nos Estado Unidos&#8221;, explica Paolini.<\/p>\n\n\n\n<p>O advogado esclarece, ainda, que a utiliza\u00e7\u00e3o do pacto n\u00e3o se resume apenas \u00e0 escolha do regime de bens, podendo disciplinar outras quest\u00f5es, inclusive extrapatrimoniais, desde que n\u00e3o violem os princ\u00edpios da dignidade humana, da igualdade entre os c\u00f4njuges e da solidariedade familiar.<\/p>\n\n\n\n<p>Os chamados direitos indispon\u00edveis, como a dispensa na presta\u00e7\u00e3o de alimentos (art. 1.707 do CC) ou a ren\u00fancia \u00e0 participa\u00e7\u00e3o na heran\u00e7a pelo c\u00f4njuge sup\u00e9rstite (art. 426 do CC), tampouco podem ser objeto do pacto.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o especialista, a decis\u00e3o da ju\u00edza de Minas Gerais representa um marco no \u00e2mbito do direito de fam\u00edlia, uma vez que reconhece o direito \u00e0 intimidade e \u00e0 autonomia do casal no \u00e2mbito de seu relacionamento e limita a interven\u00e7\u00e3o estatal nesse sentido.&nbsp;&#8220;A decis\u00e3o ratifica a amplitude de direitos que podem ser dispostos por meio dessa ferramenta&#8221;, afirma Paolini.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A regulamenta\u00e7\u00e3o dessa e de outras quest\u00f5es relativas a direitos dispon\u00edveis das partes, por meio da celebra\u00e7\u00e3o do respectivo pacto, n\u00e3o s\u00f3 pode evitar o surgimento de conflitos entre as partes, como tamb\u00e9m contribuir para a preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio comum e dos la\u00e7os afetivos entre elas&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, para que a utiliza\u00e7\u00e3o mais ampla do pacto seja de fato ben\u00e9fica para os envolvidos, \u00e9 importante que o documento seja redigido de forma adequada, n\u00e3o somente para retratar fielmente os receios de cada qual das partes, como para assegurar que as aven\u00e7as ser\u00e3o, de fato, exequ\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Conjur<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Embora pare\u00e7a estranha, \u00e9 leg\u00edtima a pretens\u00e3o de um casal de fixar multa para o caso de infidelidade em um pacto antenupcial. O C\u00f3digo Civil Brasileiro j\u00e1 prev\u00ea o dever de fidelidade, e a cl\u00e1usula penal serve, nesse contexto, para refor\u00e7ar o cumprimento do dever. 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