{"id":1393,"date":"2019-08-26T11:03:11","date_gmt":"2019-08-26T14:03:11","guid":{"rendered":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/?p=1393"},"modified":"2019-08-26T13:14:20","modified_gmt":"2019-08-26T16:14:20","slug":"antes-de-nos-propor-a-mudar-leis-devemos-efetivamente-cumprir-as-que-existem-diz-fachin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/2019\/08\/26\/antes-de-nos-propor-a-mudar-leis-devemos-efetivamente-cumprir-as-que-existem-diz-fachin\/","title":{"rendered":"&#8220;Antes de nos propor a mudar leis, devemos efetivamente cumprir as que existem&#8221;, diz Fachin"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/fachin-rovena-rosa-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-826\" srcset=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/fachin-rovena-rosa-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/fachin-rovena-rosa-300x200.jpg 300w, https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/fachin-rovena-rosa-768x512.jpg 768w, https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/fachin-rovena-rosa.jpg 1140w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O ministro&nbsp;<strong>Luiz Edson Fachin<\/strong>&nbsp;\u00e9 o coordenador de um grupo no Tribunal Superior Eleitoral encarregado de verificar conflitos entre normas eleitorais. Tarefa nada f\u00e1cil, diante da quantidade de regras sobre elei\u00e7\u00f5es&nbsp;no Brasil. Mas o trabalho do grupo, explica o ministro, n\u00e3o \u00e9 propor altera\u00e7\u00f5es legislativas. Mas formas de resolver os conflitos pela via jurisprudencial. A tarefa \u00e9 de harmoniza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de proposi\u00e7\u00e3o, enfatiza. &#8220;A&nbsp;finalidade imediata n\u00e3o \u00e9 propor novas leis. Temos tantas, precisamos a rigor cumpri-las.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista exclusiva \u00e0&nbsp;<strong>ConJur<\/strong>, Fachin nega que a Justi\u00e7a Eleitoral tenha assumido o protagonismo das elei\u00e7\u00f5es. O protagonista da democracia, diz ele, \u00e9 o povo. Mas reconhece que acertos precisam ser feitos. Como o excesso de decis\u00f5es monocr\u00e1ticas, n\u00e3o s\u00f3 no TSE, que afastam pol\u00edticos eleitos de seus cargos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Os tribunais devem primar pelas decis\u00f5es colegiadas. A decis\u00e3o monocr\u00e1tica somente cabe em casos excepcionais e deve ser, de imediato, posta \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o do colegiado, para referend\u00e1-la ou n\u00e3o&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Fachin tamb\u00e9m discorda da an\u00e1lise de que o Judici\u00e1rio assumiu papeis que n\u00e3o eram seus, construindo o que alguns cr\u00edticos chamam de &#8220;juristocracia&#8221; \u2014 ou &#8220;Supremocracia&#8221;. &#8220;A quest\u00e3o central \u00e9 autoridade com legitimidade, sem caos normativo.&nbsp;N\u00e3o vejo degrada\u00e7\u00e3o hermen\u00eautica nem derrota com ares de ceticismo&#8221;, responde o ministro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Leia a entrevista:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>ConJur \u2014&nbsp;<\/strong><strong>Cada vez mais vemos elei\u00e7\u00f5es sendo definidas no Judici\u00e1rio. Os casos s\u00e3o in\u00fameros, em todas as esferas. A Justi\u00e7a Eleitoral tutela demais a vontade do eleitor?<br>Luiz Edson&nbsp;<\/strong><strong>Fachin \u2014&nbsp;<\/strong>N\u00e3o. A soberania popular \u00e9 o motor que faz a democracia mover-se dentro dos limites e das possibilidades da Constitui\u00e7\u00e3o. Esse espa\u00e7o pol\u00edtico pr\u00f3prio n\u00e3o pode nem deve ser capturado pelo Judici\u00e1rio. Mas a Justi\u00e7a pode (e deve), quando chamada a se pronunciar, zelar pela legitimidade e normalidade das elei\u00e7\u00f5es, nos termos das regras constitucionais. A Justi\u00e7a Eleitoral tem seu papel institucional democr\u00e1tico delimitado pela Constitui\u00e7\u00e3o. Esse papel est\u00e1 relacionado a um dos requisitos a partir dos quais se define democracia \u2013 elei\u00e7\u00f5es recorrentes, livres, competitivas e justas \u2013 e Estado de Direito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ConJur \u2014&nbsp;\u00c9 exagero, ent\u00e3o, dizer que o Judici\u00e1rio hoje tem protagonismo excessivo?<\/strong><br><strong>Fachin \u2014<\/strong>&nbsp;Sim. Est\u00e3o a ver somente um Judici\u00e1rio que se tornou conhecido pelas not\u00f3rias circunst\u00e2ncias contempor\u00e2neas (e n\u00e3o apenas no Brasil.&nbsp;H\u00e1, por exemplo, o extraordin\u00e1rio&nbsp;livro de Antoine Garapon,&nbsp;<em>O Guardador de Promessas<\/em>, sobre o tema na Fran\u00e7a), mas h\u00e1 outros segmentos relevantes do Judici\u00e1rio e da presta\u00e7\u00e3o jurisdicional que s\u00e3o ainda&nbsp;grandes desconhecidos&nbsp;da m\u00eddia e por isso mesmo da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o central \u00e9 autoridade com legitimidade, sem caos normativo.&nbsp;N\u00e3o vejo degrada\u00e7\u00e3o hermen\u00eautica nem derrota com ares de ceticismo. Somente aqueles que se deixaram levar pela&nbsp;teoria do poder&nbsp;no campo normativo \u00e9 que sustentam que andamos para tr\u00e1s. N\u00e3o concordo. E n\u00e3o se trata apenas de buscar efici\u00eancia ou celeridade. Fazer justi\u00e7a compreende cumprir prazos.&nbsp;Por isso, n\u00e3o se trata de tutelar a vontade do eleitor. E o fundamental \u00e9 dar \u00e2ncoras \u00e0 democracia e \u00e0 ordem constitucional. Nem mais, nem menos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ConJur \u2014&nbsp;<\/strong><strong>H\u00e1 um projeto de lei que pretende&nbsp;alterar a Lei das Elei\u00e7\u00f5es para&nbsp;disciplinar o uso de bases de dados pessoais para fins eleitorais. O que acha da ideia?<\/strong><br><strong>Fachin \u2014<\/strong>&nbsp;O assunto n\u00e3o propicia que eu possa avan\u00e7ar demasiado sobre as controv\u00e9rsias que se avizinham.&nbsp;Esse \u00e9 um tema que se abre a di\u00e1logo extenso e distinto. Por ora, vamos tocar apenas num ponto:&nbsp;o&nbsp;direito aos pr\u00f3prios dados \u00e9 um direito fundamental. Acessos indevidos ou viola\u00e7\u00f5es afrontam a Constitui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me cabe fazer ju\u00edzos pr\u00e9vios de mat\u00e9rias que poder\u00e3o ser objeto de medidas judiciais, at\u00e9 mesmo em controle concentrado de constitucionalidade. Mas a administra\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a Eleitoral deve estar aberta \u00e0s boas inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. Seres humanos, por\u00e9m, nomeadamente os eleitores, n\u00e3o podem, contudo, ser &#8220;reificados&#8221;&nbsp;a n\u00fameros ou a cat\u00e1logo de informa\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ConJur \u2014&nbsp;<\/strong><strong>Decis\u00e3o monocr\u00e1tica pode afastar pol\u00edtico do cargo?<\/strong><br><strong>Fachin \u2014&nbsp;<\/strong>Esse \u00e9 um ponto importante. Todos os dias esse debate vem \u00e0 tona. E a pergunta \u00e9 muito oportuna.&nbsp;N\u00e3o, n\u00e3o deve afastar. Os tribunais devem primar pelas decis\u00f5es colegiadas. A decis\u00e3o monocr\u00e1tica somente cabe em casos excepcionais e deve ser, de imediato, posta \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o do colegiado, para referend\u00e1-la ou n\u00e3o. Ao Judici\u00e1rio cabe respeitar, nos termos da lei, os pap\u00e9is desempenhados pelos atores na pol\u00edtica, as pluralidades de concep\u00e7\u00f5es e as normas eleitorais vigentes, a partir do filtro da Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas investiga\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, Wittgenstein fez refer\u00eancia \u00e0 &#8220;divis\u00e3o social do trabalho lingu\u00edstico&#8221;, querendo afirmar que o uso socialmente determinado na comunidade dos falantes \u00e9 que fixa o significado de certas palavras e que, em muitos casos, essa tarefa \u00e9 delegada aos especialistas, nomeadamente na ci\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ConJur \u2014&nbsp;<\/strong><strong>O senhor \u00e9&nbsp;coordenador do grupo de trabalho do TSE encarregado de identificar conflitos nas normas eleitorais em vigor.&nbsp;<\/strong><br><strong>Fachin \u2014<\/strong>&nbsp;A&nbsp;experi\u00eancia recente no STF rep\u00f4s uma necessidade: sistematizar as normas eleitorais a partir de estudos sobre disson\u00e2ncia de interpreta\u00e7\u00e3o nas diversas elei\u00e7\u00f5es pret\u00e9ritas. A coordena\u00e7\u00e3o que conta com intensa participa\u00e7\u00e3o dos ministros Og Fernandes e Tarc\u00edsio Vieira de Carvalho Neto.&nbsp;S\u00e3o conflitos que n\u00e3o demandam altera\u00e7\u00f5es legislativas e sim, t\u00e3o somente, di\u00e1logos hermen\u00eauticos dentro e fora dos tribunais para gerar mais estabilidade e previsibilidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ConJur \u2014 J\u00e1 identificaram esses conflitos?<br>Fachin \u2014&nbsp;<\/strong>Verificamos informa\u00e7\u00f5es nos diversos eixos de tarefas e discuss\u00f5es, como a n\u00e3o recep\u00e7\u00e3o do artigo&nbsp;4\u00ba do C\u00f3digo Eleitoral, na parte em que limita o alistamento aos maiores de 18 anos. Foi identificado tamb\u00e9m a incompatibilidade do artigo&nbsp;13 do C\u00f3digo Eleitoral com o artigo&nbsp;120, par\u00e1grafo 1\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o, sobre o n\u00famero de ju\u00edzes dos tribunais regionais eleitorais.<\/p>\n\n\n\n<p>A propaganda eleitoral aponta aparente contradi\u00e7\u00e3o entre os textos que disp\u00f5em sobre limites na dimens\u00e3o das propagandas que podem ser utilizadas, sendo o \u00faltimo referente especificamente aos adesivos em carros.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 sobre financiamento de campanha, foram apontadas inconsist\u00eancias no par\u00e1grafo \u00fanico do artigo&nbsp;35 da Lei dos Partidos Pol\u00edticos, ponderando que os documentos intitulados &#8220;balan\u00e7os financeiros&#8221; tecnicamente n\u00e3o existem.&nbsp;Al\u00e9m disso, a revoga\u00e7\u00e3o t\u00e1cita do artigo&nbsp;237, par\u00e1grafo 2\u00ba do C\u00f3digo Eleitoral pelo artigo&nbsp;22 da Lei Complementar 64\/90, suscita d\u00favida sobre a perman\u00eancia dos crimes previstos nos artigos&nbsp;302 a 304 do C\u00f3digo Eleitoral diante da ordem econ\u00f4mica trazida pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a ado\u00e7\u00e3o de termo inadequado e discriminat\u00f3rio pelo artigo 6\u00ba, inciso I, al\u00ednea \u2018a\u2019 do C\u00f3digo Eleitoral (inv\u00e1lido), aponta antinomia em rela\u00e7\u00e3o ao Estatuto da Pessoa com Defici\u00eancia&nbsp;e verifica que o dispositivo legal n\u00e3o regulamenta de forma adequada a situa\u00e7\u00e3o das pessoas com defici\u00eancia, especialmente daquelas cujo comparecimento obrigat\u00f3rio para alistamento eleitoral ou para o exerc\u00edcio do voto importe em \u00f4nus desproporcional.<\/p><div class=\"xsmof69ee14a87cb94\" ><!--<a href=\"https:\/\/bit.ly\/3QdrqTZ\" target=\"_blank\">\n<img src=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mobile-geral.gif\"\/><a\/>--><\/div><style type=\"text\/css\">\r\n.xsmof69ee14a87cb94 {\r\ntext-align: center;\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 1201px) {\r\n.xsmof69ee14a87cb94 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 993px) and (max-width: 1200px) {\r\n.xsmof69ee14a87cb94 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 769px) and (max-width: 992px) {\r\n.xsmof69ee14a87cb94 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 768px) and (max-width: 768px) {\r\n.xsmof69ee14a87cb94 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (max-width: 767px) {\r\n.xsmof69ee14a87cb94 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n<\/style>\r\n<div class=\"gkrpg69ee14a87cb71\" ><!--<a href=\"https:\/\/bit.ly\/3QdrqTZ\" target=\"_blank\">\n<img src=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/desktop-geral.gif\"\/><a\/>--><\/div><style type=\"text\/css\">\r\n.gkrpg69ee14a87cb71 {\r\ntext-align: center;\nmargin-bottom: 1em;\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 1201px) {\r\n.gkrpg69ee14a87cb71 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 993px) and (max-width: 1200px) {\r\n.gkrpg69ee14a87cb71 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 769px) and (max-width: 992px) {\r\n.gkrpg69ee14a87cb71 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 768px) and (max-width: 768px) {\r\n.gkrpg69ee14a87cb71 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (max-width: 767px) {\r\n.gkrpg69ee14a87cb71 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n<\/style>\r\n\n\n\n\n<p><strong>ConJur \u2014&nbsp;J\u00e1 tem alguma proposta de sistematiza\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o legislativa?<\/strong><br><strong>Fachin \u2014&nbsp;<\/strong>N\u00e3o. A&nbsp;finalidade imediata n\u00e3o \u00e9 propor novas leis. Temos tantas, precisamos a rigor cumpri-las. O Judici\u00e1rio n\u00e3o legisla, pois a separa\u00e7\u00e3o de poderes \u00e9 norma elevada ao patamar de cl\u00e1usula p\u00e9trea pela Constitui\u00e7\u00e3o. Por isso, n\u00e3o se prop\u00f5em altera\u00e7\u00f5es legislativas e sim de harmoniza\u00e7\u00e3o de entendimentos jurisprudenciais.&nbsp;Somente ap\u00f3s o cumprimento das fases previstas com o fim de permitir um estudo apurado e um amplo debate com a comunidade \u00e9 que ser\u00e3o apresentadas as conclus\u00f5es e eventuais propostas, que n\u00e3o incluem, h\u00e1 que se esclarecer, apresenta\u00e7\u00e3o de proposta de inova\u00e7\u00e3o legislativa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ConJur \u2014&nbsp;<\/strong><strong>Haver\u00e1 mudan\u00e7as significativas na&nbsp;aplica\u00e7\u00e3o das resolu\u00e7\u00f5es do TSE nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es?<\/strong><br><strong>Fachin \u2014<\/strong>&nbsp;N\u00e3o. Estamos mirando prioritariamente as elei\u00e7\u00f5es de 2020. Vamos com calma e prud\u00eancia para dar estabilidade e previsibilidade aos resultados do trabalho. N\u00e3o temos como objetivo projetar o resultado desse esfor\u00e7o nas elei\u00e7\u00f5es do pr\u00f3ximo ano. O nosso trabalho ser\u00e1 encerrado em 30 de setembro e o resultado ser\u00e1 entregue ao tribunal e \u00e0 comunidade interessada. Ademais, o escopo do trabalho desenvolvido pelo grupo n\u00e3o tem a pretens\u00e3o de se sobrepor \u00e0s instru\u00e7\u00f5es. Por ora, o&nbsp;objetivo \u00e9 restrito e modesto: oferecer um quadro de normas e interpreta\u00e7\u00e3o que ajudem a presta\u00e7\u00e3o jurisdicional. \u00c9 uma contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia e \u00e0 Justi\u00e7a Eleitoral. E elei\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas, com legitimidade e normalidade, s\u00e3o&nbsp;sintoma vivo de democracia em pleno vapor.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ConJur \u2014&nbsp;<\/strong><strong>Quando era presidente do TSE, o ministro Dias Toffoli convocou os ministros Luiz Fux, Rosa Weber e Lu\u00eds Roberto Barroso para consolidar a jurisprud\u00eancia do tribunal para as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es. Ele estava preocupado com as varia\u00e7\u00f5es de entendimento de uma elei\u00e7\u00e3o para outra. Menos de cinco anos depois, o tribunal promove nova sistematiza\u00e7\u00e3o de regras. O que acontece? \u00c9 a jurisprud\u00eancia que muda demais, ou h\u00e1 reformas eleitorais demais?<\/strong><br><strong>Fachin \u2014&nbsp;<\/strong>Sim, h\u00e1 inequivocamente essa d\u00faplice constata\u00e7\u00e3o, muta\u00e7\u00f5es legislativas e oscila\u00e7\u00f5es de precedentes.&nbsp;Contudo, quanto \u00e0s iniciativas anteriores, isso somente mostra que temos preocupa\u00e7\u00e3o em comum. Tempos novos v\u00eam ser demarcados pelas transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas a exigir novas respostas. \u00c0 jurisprud\u00eancia incumbe garantir igualdade e regularidade eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 diversas leis que n\u00e3o necessariamente consideraram uma conforma\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica. Faz-se crucial organizar esse quadro normativo. Tenhamos isso n\u00edtido: o que estamos a realizar&nbsp;aqui \u00e9 uma forma dos di\u00e1logos institucionais, garimpando sentidos de harmonia na interpreta\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o.&nbsp;O papel da Justi\u00e7a Eleitoral \u00e9 essencial para isso, dentro dos limites legais, tendo em vista a fun\u00e7\u00e3o que executa de \u00f3rg\u00e3o encarregado da realiza\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ConJur \u2014&nbsp;<\/strong><strong>O deputado Lelo Coimbra (PMDB-ES) levantou que entre 1989 e 2015 foram 14 reformas no sistema eleitoral. &#8220;N\u00e3o ficamos duas elei\u00e7\u00f5es com o mesmo sistema desde que a Constitui\u00e7\u00e3o foi promulgada&#8221;, segundo ele. Um sistema assim \u00e9 sustent\u00e1vel?<\/strong><br><strong>Fachin \u2014<\/strong>&nbsp;N\u00e3o \u00e9. A cr\u00edtica tem dire\u00e7\u00e3o certa. Mas o sentido \u00e9 outro. \u00c9 preciso dar estabilidade e previsibilidade. A reforma eleitoral \u00e9 tema pr\u00f3prio do Legislativo.&nbsp;As delibera\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias do parlamento pertencem ao debate pol\u00edtico. A teoria normativa n\u00e3o pode nem deve ser encapsulada pela teoria pol\u00edtica. Ao Judici\u00e1rio Eleitoral cumpre realizar a proclama\u00e7\u00e3o do legislador em seu duplo papel: justi\u00e7a para o caso concreto e regulamentador para a gest\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es. Certas varia\u00e7\u00f5es legislativas s\u00e3o pr\u00f3prias de uma democracia aberta, porosa e em solidifica\u00e7\u00e3o. O importante \u00e9 preservar a Constitui\u00e7\u00e3o e as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa na\u00e7\u00e3o plural e aberta, num Estado verdadeiramente de direito democr\u00e1tico, nenhum juiz chamar\u00e1 para si a fun\u00e7\u00e3o exclusiva absoluta de guardador de promessas da Constitui\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o cruzar\u00e1 os bra\u00e7os para ser v\u00edtima de omiss\u00e3o cega e o far\u00e1 ciente de que n\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a digna de tal nome sem democracia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ConJur \u2014&nbsp;O&nbsp;<\/strong><strong>ministro Gilmar Mendes costuma dizer que as interven\u00e7\u00f5es do Supremo em mat\u00e9ria eleitoral criaram um &#8220;sistema confuso&#8221;. Ele se refere principalmente \u00e0 declara\u00e7\u00e3o de inconstitucionalidade da cl\u00e1usula de desempenho e de permitir a mudan\u00e7a de partidos como ressalva para a perda de mandato por infidelidade partid\u00e1ria. O sistema \u00e9 confuso? O STF contribuiu para que ficasse confuso?<\/strong><br><strong>Fachin \u2014&nbsp;<\/strong>N\u00e3o. O Judici\u00e1rio atua quando chamado. O dogma da &#8220;\u00faltima palavra&#8221;&nbsp;traduz essa posi\u00e7\u00e3o de protagonista superlativado ao STF. Uma sociedade n\u00e3o abdica de seu poder de escolha na democracia representativa. Imaginar problemas ou sa\u00eddas de cima para baixo \u00e9 desprezar o sentimento democr\u00e1tico.&nbsp;Nunca \u00e9 demais recordar&nbsp;que o Supremo n\u00e3o det\u00e9m a \u00faltima palavra sobre o projeto da Constitui\u00e7\u00e3o \u2014&nbsp;o Congresso, por exemplo, pode emend\u00e1-lo. O tribunal \u00e9, no m\u00e1ximo, part\u00edcipe da tarefa de distribuir confian\u00e7a entre as institui\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ConJur \u2014&nbsp;Por qu\u00ea?<\/strong><br><strong>Fachin \u2014&nbsp;<\/strong>Democracia pressup\u00f5e ru\u00eddos, dissensos e liberdade, elei\u00e7\u00f5es livres, justas diretas e peri\u00f3dicas, institui\u00e7\u00f5es em regular funcionamento, garantia plena da liberdade de express\u00e3o e do acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, pluripartidarismo, participa\u00e7\u00e3o ativa e imprescind\u00edvel dos partidos pol\u00edticos e da sociedade como um todo, se projetam, numa democracia, em sistema eleitoral organizado por \u201cum conjunto de normas que define como o eleitor poder\u00e1 fazer suas escolhas.&nbsp;As leis eleitorais de uma democracia demandam um m\u00ednimo de seguran\u00e7a e previsibilidade para saber quais s\u00e3o os eleitores aptos a votar; os crit\u00e9rios para apresenta\u00e7\u00e3o de candidatos; as normas de acesso aos meios de comunica\u00e7\u00e3o; os mecanismos de controle de gastos de campanha e acesso ao fundo partid\u00e1rio; as normas para a divulga\u00e7\u00e3o das pesquisas; as regras e o alcance do incentivo e apoio \u00e0 participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das mulheres, com zelo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma teoria operacional da norma requer que passemos por esse desafio: n\u00e3o cruzar os bra\u00e7os, numa omiss\u00e3o cega, nem se projetar no campo dos demais poderes e institui\u00e7\u00f5es, numa hipertrofia critic\u00e1vel. O ponto \u00e9 o equil\u00edbrio na legalidade constitucional que eleva a princ\u00edpio normativo (par\u00e1grafo&nbsp;9\u00ba do artigo&nbsp;14 da Constitui\u00e7\u00e3o) a legitimidade e a normalidade das elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ConJur \u2014&nbsp;Na sua opini\u00e3o, \u00e9&nbsp;um equ\u00edvoco dizer que o Judici\u00e1rio tem aumentado a incerteza?<\/strong><br><strong>Fachin \u2014<\/strong>&nbsp;\u00c9, sim. N\u00e3o concordo com isso. O parlamento n\u00e3o se resume a alguns parlamentares.&nbsp;O&nbsp;Judici\u00e1rio n\u00e3o se reduz a alguns ju\u00edzes. Estou a falar das institui\u00e7\u00f5es e n\u00e3o de pessoas historicamente localizadas ou situadas em outra ordem de preocupa\u00e7\u00f5es. Esse conceito aritm\u00e9tico de certeza ou de incerteza se situa num tempo anterior ao idealismo kantiano. N\u00e3o est\u00e1 na sociedade plural e complexa do presente. O mal \u00e9 outro, o sintoma n\u00e3o est\u00e1 na incerteza. A patologia \u00e9 o conjunto das disfun\u00e7\u00f5es derivadas do processo de dilui\u00e7\u00e3o institucional em curso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ConJur \u2014&nbsp;A<\/strong><strong>&nbsp;declara\u00e7\u00e3o de inconstitucionalidade do financiamento eleitoral por empresas \u00e9 bastante criticada. Para os cr\u00edticos, o Supremo derrubou o financiamento do sistema eleitoral, mas manteve o sistema de p\u00e9, o que o inviabilizou. Eles defendem que o melhor seria criar um sistema de controle, com mais transpar\u00eancia, do que proibir a doa\u00e7\u00e3o de empresas. Faz sentido? Como montar um sistema eleitoral em que s\u00f3 eleitores possam doar (considerando que temos mais de 12 milh\u00f5es de desempregados, fora os &#8220;desalentados&#8221;)?<\/strong><br><strong>Fachin \u2014&nbsp;<\/strong>Antes de tudo, h\u00e1 um paralogismo na pergunta: pa\u00eds pobre, injusto e desigual n\u00e3o pode ser argumento para alijar eleitores e contaminar o financiamento eleitoral.&nbsp;A mat\u00e9ria foi definida pelo STF. E corretamente. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es para promover a todo tempo oscila\u00e7\u00f5es. Precisamos promover confian\u00e7a e respostas coerentes com um pa\u00eds r\u00e9u de desigualdades, injusti\u00e7as, concentra\u00e7\u00f5es de poder e de renda. \u00c9 preciso mudar. Encontro nisso raz\u00f5es suficientes para aqui estar. Auxiliar no caminho para novas perspectivas. Estimular a vida pol\u00edtica e p\u00fablica. Portanto, como n\u00e3o h\u00e1 sistema perfeito, precisamos \u00e0 exaust\u00e3o levar a experi\u00eancia como prova emp\u00edrica e n\u00e3o ao sabor de conveni\u00eancias de ocasi\u00e3o.&nbsp;Ter esse abrigo \u00e9 cartografar a luz de uma gera\u00e7\u00e3o, um ide\u00e1rio e um pa\u00eds de sentidos que ainda nos ilumina. Nesse continente de significados, nascemos e morremos muitas vezes. Assim se fez com algumas alegrias, mas tamb\u00e9m experimentamos o sabor \u00e1cido do atestado de algumas tristezas. Desafia-nos, pois, o cont\u00ednuo renascimento apto a tamb\u00e9m inundar de necess\u00e1rias cores este ver\u00eddico mundo finito.&nbsp; Aos desalentados impende evidenciar que neles est\u00e1 o sentido de inclus\u00e3o social, pol\u00edtico e econ\u00f4mico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ConJur \u2014&nbsp;A&nbsp;Lei da Ficha Limpa melhorou o sistema pol\u00edtico brasileiro?<br>Fachin \u2014&nbsp;<\/strong>Sim, sem d\u00favida. Aplicou a Constitui\u00e7\u00e3o que expressamente prev\u00ea a&nbsp;vida pregressa&nbsp;do candidato como pressuposto de participa\u00e7\u00e3o eleitoral ativa. P\u00f4s no caminho da pol\u00edtica a moralidade p\u00fablica e a vida pregressa do candidato. Traduziu uma nova era na democracia. Evidenciou os limites para os atores pol\u00edticos numa sociedade democr\u00e1tica. N\u00e3o basta, contudo, a lei em sentido formal.&nbsp;\u00c9&nbsp;essencial que se torne um modo de ser e de estar na pol\u00edtica. O que est\u00e1 na base da Lei da Ficha Limpa, em meu ver, \u00e9 a responsabilidade.&nbsp;Sob a autoridade das normas de direito constitucional democr\u00e1tico, \u00e9 fundamental situar a responsabilidade pol\u00edtica. E a responsabilidade pessoal (penal, civil, administrativa, ou de qualquer natureza normativa), v\u00ea o r\u00e9u em sua particularidade, como escreveu a professora Ros\u00e2ngela Chaves em sua tese sobre Hanna Arendt.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ConJur \u2014&nbsp;A<\/strong>&nbsp;<strong>Ficha Limpa n\u00e3o estimula interven\u00e7\u00f5es exageradas do Judici\u00e1rio na pol\u00edtica?<\/strong><br><strong>Fachin \u2014<\/strong>&nbsp;N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 excesso.&nbsp;\u00c9 certo que h\u00e1 falhas pontuais, e, portanto, erros devem ser corrigidos. O ator central da pol\u00edtica \u00e9 o eleitor e o ve\u00edculo imprescind\u00edvel, o partido pol\u00edtico. O papel do Judici\u00e1rio \u00e9 o de auxiliar o funcionamento dessa m\u00e1quina eleitoral. \u00c9 uma forma de competi\u00e7\u00e3o leg\u00edtima, democr\u00e1tica, que tem um \u00e1rbitro isento e independente. \u00c9 preciso, portanto, levar a s\u00e9rio essa leg\u00edtima competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Reitero o que tenho sustentado nessa seara: as regras que fixam os limites das a\u00e7\u00f5es de cada ator do processo eleitoral exercem um papel central. E uma qualidade inafast\u00e1vel desse sistema \u00e9 mesmo a certeza. Certeza que n\u00e3o deve ser aritm\u00e9tica, mas a express\u00e3o da confian\u00e7a. Ainda que o Direito seja linguagem e que a marca t\u00edpica da linguagem seja a sua textura aberta, a redu\u00e7\u00e3o das incertezas \u00e9 um dever, principalmente, da jurisprud\u00eancia. Em uma campanha eleitoral, \u00e9 plaus\u00edvel que os candidatos tenham d\u00favida quanto \u00e0 melhor estrat\u00e9gia para conquistar a afinidade do eleitor, mas n\u00e3o podem ter relativamente aos limites das estrat\u00e9gias poss\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conjur<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tarefa \u00e9 de harmoniza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de proposi\u00e7\u00e3o, enfatiza<br \/><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/2019\/08\/26\/antes-de-nos-propor-a-mudar-leis-devemos-efetivamente-cumprir-as-que-existem-diz-fachin\/\">Mais&#8230;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":826,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1393"}],"collection":[{"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1393"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1393\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1394,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1393\/revisions\/1394"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/826"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1393"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1393"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1393"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}