{"id":13425,"date":"2020-09-30T10:46:47","date_gmt":"2020-09-30T13:46:47","guid":{"rendered":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/?p=13425"},"modified":"2020-09-30T10:46:47","modified_gmt":"2020-09-30T13:46:47","slug":"stf-mantem-absolvicao-de-homem-que-tentou-matar-a-ex-mulher-e-alegou-legitima-defesa-da-honra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/2020\/09\/30\/stf-mantem-absolvicao-de-homem-que-tentou-matar-a-ex-mulher-e-alegou-legitima-defesa-da-honra\/","title":{"rendered":"STF mant\u00e9m absolvi\u00e7\u00e3o de homem que tentou matar a ex-mulher e alegou \u2018leg\u00edtima defesa da honra\u2019"},"content":{"rendered":"\n<p>A 1\u00aa Turma do Supremo Tribunal Federal (<strong><a href=\"https:\/\/tudo-sobre.estadao.com.br\/stf-supremo-tribunal-federal\">STF<\/a><\/strong>) manteve nesta ter\u00e7a-feira, 29, a absolvi\u00e7\u00e3o de um homem que tentou matar a ex-mulher a facadas diante de suspeitas de trai\u00e7\u00e3o conjugal por parte da companheira. No j\u00fari ocorrido em 2017, a defesa sustentou que o ataque estava amparado na \u201c<strong>leg\u00edtima defesa da honra<\/strong>\u201d, argumento que ganhou apoio un\u00e2nime dos jurados na oportunidade. Os ministros do STF entenderam que a decis\u00e3o pelo tribunal do j\u00fari \u00e9 soberana e n\u00e3o pode ser modificada.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" width=\"960\" height=\"640\" src=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/facada-11.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4664\" srcset=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/facada-11.jpg 960w, https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/facada-11-300x200.jpg 300w, https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/facada-11-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption>Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A vota\u00e7\u00e3o terminou 3 a 2 a favor da manuten\u00e7\u00e3o da absolvi\u00e7\u00e3o, com votos a favor do relator&nbsp;<strong><a href=\"https:\/\/tudo-sobre.estadao.com.br\/marco-aurelio-mello\">Marco Aur\u00e9lio Mello<\/a><\/strong>&nbsp;e dos ministros Dias Toffoli e Rosa Weber. Votaram contra os ministros Alexandre de Moraes e Lu\u00eds Roberto Barroso. O Tribunal de Justi\u00e7a de Minas Gerais e o Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) tinham entendido que a absolvi\u00e7\u00e3o contrariava as provas reunidas no processo e deliberaram pela realiza\u00e7\u00e3o de um novo j\u00fari, o que agora, com a decis\u00e3o do STF, n\u00e3o dever\u00e1 ocorrer.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, crimes intencionais contra a vida, como assassinatos e tentativas de assassinato, s\u00e3o julgados por um corpo de jurados formado por cidad\u00e3os comuns. Eles ouvem os argumentos formulados pela acusa\u00e7\u00e3o e pela defesa e votam para decidir pela absolvi\u00e7\u00e3o ou condena\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us. O STF vem ratificando nos \u00faltimos anos o entendimento de que a decis\u00e3o de j\u00faris populares, como s\u00e3o conhecidos, n\u00e3o pode ser alterada.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2017, um tribunal do j\u00fari foi formado em uma cidade do interior de&nbsp;<strong><a href=\"https:\/\/tudo-sobre.estadao.com.br\/minas-gerais-estado\">Minas Gerais<\/a><\/strong>&nbsp;para julgar um homem, que, em maio de 2016, atacou a facadas a ex-companheira de quem havia se separado na semana anterior. O homem fugiu ap\u00f3s o ataque, mas foi preso em seguida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 pol\u00edcia e \u00e0 Justi\u00e7a, ele confessou a agress\u00e3o sob a justificativa de que desconfiava que a mulher estaria tendo um caso com um outro homem. \u201cBateu um trem doido\u201d foi como ele descreveu o momento, relatando que \u201cfoi pegando na sua cabe\u00e7a\u201d a desconfian\u00e7a contra a v\u00edtima at\u00e9 o dia em que a atacou nas imedia\u00e7\u00f5es de uma igreja, desferindo golpes com uma faca de serra que feriu a mulher nas costas e na cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Desferi tr\u00eas facadas na minha ex, pois vi v\u00e1rias conversas amorosas no celular dela, sou trabalhador e n\u00e3o posso aceitar de forma alguma uma situa\u00e7\u00e3o humilhante dessas&#8221;, disse o homem ao policial que o prendeu ap\u00f3s as agress\u00f5es, segundo consta do depoimento do agente \u00e0 Justi\u00e7a. O agressor permaneceu detido at\u00e9 a data do julgamento.<\/p>\n\n\n\n<p>No julgamento, sua defesa apostou no argumento da \u201cleg\u00edtima defesa da honra\u201d. &#8220;Ela era a mulher dele e estava fazendo sacanagem com ele. N\u00e3o tinha necessidade de fazer isso. Mas fez, o que \u00e9 que vai fazer? Mas ela fez um curativo no hospital e foi embora para casa. \u00c9 uma hist\u00f3ria entre marido e mulher&#8221;, disse nesta ter\u00e7a-feira ao&nbsp;<strong>Estad\u00e3o<\/strong>&nbsp;o advogado do ent\u00e3o r\u00e9u, Jos\u00e9 Ramos Guedes, que atuou no j\u00fari. &#8220;Aleguei leg\u00edtima defesa da honra. O sujeito confia na pessoa e ela sai para fazer uma coisa&#8230;Ele ficou aborrecido, se sentiu desonrado&#8221;, completou o advogado.<\/p>\n\n\n\n<p>O argumento sustentado por Guedes ganhou apoio un\u00e2nime entre os jurados. O r\u00e9u foi absolvido e solto ap\u00f3s o julgamento. O Minist\u00e9rio P\u00fablico apresentou recurso ao TJ de Minas, pedindo a anula\u00e7\u00e3o do j\u00fari, no que foi atendido. A Corte mineira cassou a decis\u00e3o dos jurados e determinou novo julgamento. \u201c\u00c9 certo que os julgamentos pelo j\u00fari est\u00e3o garantidos constitucionalmente, sendo seus veredictos soberanos, o que, contudo, n\u00e3o autoriza que sejam arbitr\u00e1rios e sem suporte no contexto dos autos\u201d, escreveu o desembargador Corr\u00eaa Camargo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuanto \u00e0 hip\u00f3tese de leg\u00edtima defesa da honra, sabe-se que a moderna jurisprud\u00eancia, acompanhando a evolu\u00e7\u00e3o dos comportamentos sociais, vem rejeitando de maneira praticamente un\u00e2nime, a tese da excludente para aquele que tenta ceifar a vida de outro em face da infidelidade conjugal ou mero ci\u00fame\u201d, sustentou o magistrado. Em 2019, a decis\u00e3o foi do TJ de Minas mantida pelo Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) at\u00e9 ser julgada nesta ter\u00e7a-feira pelo STF.<\/p>\n\n\n\n<p>Para defender o seu voto a favor da manuten\u00e7\u00e3o da absolvi\u00e7\u00e3o do r\u00e9u, o relator Marco Aur\u00e9lio Mello argumentou com base na Constitui\u00e7\u00e3o Federal. \u201cTemos que a lei maior assegura a soberania dos vereditos. O que \u00e9 julgamento pelo Tribunal do J\u00fari? \u00c9 o julgamento por iguais, \u00e9 o julgamento por leigos, a partir dessa previs\u00e3o constitucional\u201d, disse.<\/p><div class=\"enbak69e00c63e824c\" ><!--<a href=\"https:\/\/bit.ly\/3QdrqTZ\" target=\"_blank\">\n<img src=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mobile-geral.gif\"\/><a\/>--><\/div><style type=\"text\/css\">\r\n.enbak69e00c63e824c {\r\ntext-align: center;\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 1201px) {\r\n.enbak69e00c63e824c {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 993px) and (max-width: 1200px) {\r\n.enbak69e00c63e824c {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 769px) and (max-width: 992px) {\r\n.enbak69e00c63e824c {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 768px) and (max-width: 768px) {\r\n.enbak69e00c63e824c {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (max-width: 767px) {\r\n.enbak69e00c63e824c {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n<\/style>\r\n<div class=\"wujoz69e00c63e8227\" ><!--<a href=\"https:\/\/bit.ly\/3QdrqTZ\" target=\"_blank\">\n<img src=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/desktop-geral.gif\"\/><a\/>--><\/div><style type=\"text\/css\">\r\n.wujoz69e00c63e8227 {\r\ntext-align: center;\nmargin-bottom: 1em;\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 1201px) {\r\n.wujoz69e00c63e8227 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 993px) and (max-width: 1200px) {\r\n.wujoz69e00c63e8227 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 769px) and (max-width: 992px) {\r\n.wujoz69e00c63e8227 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 768px) and (max-width: 768px) {\r\n.wujoz69e00c63e8227 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (max-width: 767px) {\r\n.wujoz69e00c63e8227 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n<\/style>\r\n\n\n\n\n<p>O ministro Dias Toffoli fez pondera\u00e7\u00f5es sobre a institui\u00e7\u00e3o do j\u00fari, mas defendeu a soberania das decis\u00f5es dos cidad\u00e3os. \u201cO j\u00fari \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o anacr\u00f4nica, deveria ser extinto. Temos que, enquanto isso n\u00e3o ocorrer, respeitar a soberania do j\u00fari, seja para absolver, seja para condenar e prender de imediato\u201d, disse.<\/p>\n\n\n\n<p>A ministra Rosa Weber tamb\u00e9m ressaltou que o caso \u00e9 muito \u201cdelicado\u201d, mas que decidiria o seu voto entendendo que \u201ch\u00e1 preval\u00eancia da norma constitucional\u201d e que \u201cem se tratando de senten\u00e7a, a decis\u00e3o absolut\u00f3ria no Tribunal do J\u00fari dada no quesito gen\u00e9rico de absolvi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 como conhecer, com o maior respeito, o recurso ministerial\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 para o ministro Alexandre de Moraes, que votou contra a manuten\u00e7\u00e3o da absolvi\u00e7\u00e3o, \u00e9 constitucionalmente poss\u00edvel a realiza\u00e7\u00e3o de um novo julgamento pelo pr\u00f3prio Tribunal do J\u00fari, dentro do sistema acusat\u00f3rio, e n\u00e3o se deve tornar o corpo de jurados em um poder \u201cincontrast\u00e1vel, ilimitado, sem qualquer possibilidade de revis\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O ministro Barroso, por sua vez, votou destacando que n\u00e3o gostaria de viver num pa\u00eds em que os homens pudessem matar as mulheres por ci\u00fames e sa\u00edrem impunes. \u201cSe chancelarmos a absolvi\u00e7\u00e3o de um feminic\u00eddio grave como esse pode parecer que estamos passando a mensagem de que um homem, se sentir tra\u00eddo, pode esfaquear a sua mulher tentando mat\u00e1-la em leg\u00edtima defesa da honra ou seja l\u00e1 em que tese se possa definir. N\u00e3o parece que no s\u00e9culo 21 essa seja uma tese que possa se sustentar\u201d, argumentou.<\/p>\n\n\n\n<p>A professora doutora da Faculdade de Direito da PUC de S\u00e3o Paulo, Silvia Pimentel, explicou que a linguagem &#8220;leg\u00edtima defesa da honra&#8221; n\u00e3o existe no ordenamento jur\u00eddico brasileiro, mas que \u00e9 muito usada, inclusive pelo Poder Judici\u00e1rio, para absolver agressores de mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o est\u00e1 dentro do ordenamento jur\u00eddico brasileiro, mas foi utilizada muitas vezes aqui em nosso Pa\u00eds. H\u00e1 muitas decis\u00f5es que se valeram desta pseudo excludente de criminalidade. Isto \u00e9, esta figura lingu\u00edstica de ret\u00f3rica foi constru\u00edda numa sociedade patriarcal a partir de um instituto da leg\u00edtima defesa, este sim presente no ordenamento jur\u00eddico brasileiro\u201d, disse.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a professora, a decis\u00e3o do STF \u00e9 \u201clament\u00e1vel, n\u00e3o razo\u00e1vel e mesmo absurda\u201d. \u201cIsto porque se prevalecer este entendimento as decis\u00f5es do Tribunal do J\u00fari seriam irrecorr\u00edveis no Brasil\u201d, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor de Direito Penal da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP), Cl\u00e1udio Langroiva, explica que s\u00f3 h\u00e1 uma hip\u00f3tese para se anular uma decis\u00e3o tomada pelo Tribunal do J\u00fari. \u201cIsso ocorre nos casos em que a decis\u00e3o \u00e9 manifestamente contr\u00e1ria a provas dos autos. Mas n\u00e3o se pode mudar a decis\u00e3o do j\u00fari, de absolvi\u00e7\u00e3o para condena\u00e7\u00e3o, mas sim ordenar um novo julgamento\u201d, disse.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele explica que a institui\u00e7\u00e3o do j\u00fari \u00e9 constitucionalmente prevista para dar a \u00fanica oportunidade dos pr\u00f3prios membros da sociedade decidirem sobre a condena\u00e7\u00e3o ou absolvi\u00e7\u00e3o de uma pessoa. Em outros pa\u00edses, o mecanismo \u00e9 usado para casos de diferentes naturezas, enquanto no Brasil est\u00e1 restrito a crimes dolosos contra a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Estad\u00e3o<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A 1\u00aa Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) manteve nesta ter\u00e7a-feira, 29, a absolvi\u00e7\u00e3o de um homem que tentou matar a ex-mulher a facadas diante de suspeitas de trai\u00e7\u00e3o conjugal por parte da companheira. 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