{"id":12777,"date":"2020-09-09T15:27:52","date_gmt":"2020-09-09T18:27:52","guid":{"rendered":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/?p=12777"},"modified":"2020-09-09T13:58:10","modified_gmt":"2020-09-09T16:58:10","slug":"desembargadora-e-investigada-por-fazer-ginastica-para-garantir-cartorio-a-ex-assessor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/2020\/09\/09\/desembargadora-e-investigada-por-fazer-ginastica-para-garantir-cartorio-a-ex-assessor\/","title":{"rendered":"Desembargadora \u00e9 investigada por fazer gin\u00e1stica para garantir cart\u00f3rio a ex-assessor"},"content":{"rendered":"\n<p>Com os amigos \u201ccertos\u201d, um assessor jur\u00eddico pode virar at\u00e9 tabeli\u00e3o de cart\u00f3rio, como aconteceu em Buriticupu, uma pequena cidade do interior do Maranh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 Mauro Barbosa Arouche foi assessor no gabinete da desembargadora do Tribunal de Justi\u00e7a do Maranh\u00e3o Nelma Celeste Sousa Silva Sarney entre 2001 e 2014. A proximidade da magistrada \u2013 cunhada do ex-presidente Jos\u00e9 Sarney e, gra\u00e7as ao casamento, parte de uma das fam\u00edlias mais influentes do estado \u2013, parece ter sido essencial para lhe garantir o cargo de administrador do \u00fanico cart\u00f3rio de Buriticupu e alguns milhares de reais a mais na conta, como consta no processo em curso no CNJ.<\/p>\n\n\n\n<p>A fun\u00e7\u00e3o de \u201cdelegat\u00e1rio de serventia\u201d, nome oficial de quem administra um cart\u00f3rio, \u00e9 concorrida e levou mais de 1.300 pessoas a participarem do concurso realizado em 2008 para definir quem seria o respons\u00e1vel pelas 202 serventias sem administradores espalhadas pelo estado. Tamb\u00e9m pudera: apenas em 2019, o cart\u00f3rio de Buriticupu arrecadou mais de R$ 1,3 milh\u00e3o, segundo informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis no site do Tribunal de Justi\u00e7a do Maranh\u00e3o. Uma pequena quantia desse valor, cerca de R$ 156 mil, foi para o Fundo Especial de Moderniza\u00e7\u00e3o e Aparelhamento do Judici\u00e1rio. O resto, exclu\u00eddo o pagamento dos funcion\u00e1rios, as despesas fixas e demais custos de manuten\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os, ficou na m\u00e3o do titular do cart\u00f3rio, mas como a vaga era ocupada por um interino, que recebe um sal\u00e1rio fixo, o lucro \u00e9 destinado ao fundo do TJMA. \u00c9 um neg\u00f3cio lucrativo \u2013 e&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/LEIS\/L8935.htm\">garantido para a vida toda<\/a>, j\u00e1 que o cargo \u00e9 vital\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Arouche tamb\u00e9m se inscreveu no concurso e, apesar de ter passado em uma das duas fases \u2013 uma prova objetiva com 100 quest\u00f5es de m\u00faltipla escolha\u2013, empacou na segunda, discursiva, que envolvia quatro quest\u00f5es te\u00f3ricas e outras tr\u00eas pr\u00e1ticas. Tirou 6,3 na parte objetiva e sequer alcan\u00e7ou a nota m\u00ednima \u2013 5 \u2013, na prova discursiva, alcan\u00e7ando apenas 1 ponto.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria s\u00f3 mais uma hist\u00f3ria de um concurseiro frustrado, caso Arouche n\u00e3o tivesse questionado \u2013 e ganhado! \u2013, o cargo. O caso agora est\u00e1 sendo analisado pelo CNJ, que concluir\u00e1 se foram algumas manobras amigas da justi\u00e7a maranhense que colocou o assessor a frente do cart\u00f3rio. O conselho passou a analisar o caso ap\u00f3s uma den\u00fancia an\u00f4nima, acusando os dois magistrados de quebra de imparcialidade \u2013 o velho e bom favorecimento. Em 25 de junho, o prazo para conclus\u00e3o do processo foi prorrogada em mais 140 dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Arouche chegou a entrar com uma liminar em 2009 pedindo que as suas respostas \u00e0s quest\u00f5es discursivas fossem recorrigidas. A banca reavaliou sua prova, mas manteve a reprova\u00e7\u00e3o. Os registros de movimenta\u00e7\u00e3o no site do tribunal mostram algo estranho. A desembargadora Sarney pediu que os arquivos referentes ao processo do assessor, que j\u00e1 havia tramitado at\u00e9 o fim, fossem encaminhados ao seu gabinete, onde ficaram por um m\u00eas e meio antes de o caso ser definitivamente arquivado em 2011.<\/p>\n\n\n\n<p>O assessor esperou mais tr\u00eas anos e escolheu entrar com um novo processo pedindo a revis\u00e3o da sua nota \u00e0 justi\u00e7a em fevereiro de 2014, exatamente um m\u00eas depois de a desembargadora Sarney, com quem ainda trabalhava, se tornar corregedora do tribunal. Segundo consta no relat\u00f3rio do conselheiro Humberto Martins, relator do caso no CNJ, a magistrada se aproveitou do seu poder e fez uma s\u00e9rie de manobras judiciais para favorecer o assessor de longa data.<\/p>\n\n\n\n<p>Em mar\u00e7o de 2014, na fun\u00e7\u00e3o de corregedora \u2013 que, al\u00e9m de fiscalizar o trabalho dos outros magistrados, tem entre suas atribui\u00e7\u00f5es decidir em que varas ser\u00e3o alocados os ju\u00edzes auxiliares \u2013, a magistrada nomeou o juiz Cl\u00e9sio Coelho Cunha para substituir o juiz titular da 5\u00aa Vara da Fazenda P\u00fablica de S\u00e3o Lu\u00eds, que estava de f\u00e9rias e seria o respons\u00e1vel por julgar o pedido de Arouche. Cunha, que tamb\u00e9m \u00e9 investigado pelo suposto favorecimento do assessor no concurso, determinou que fosse criada uma comiss\u00e3o no tribunal para corrigir novamente as respostas do assessor.<\/p>\n\n\n\n<p>A comiss\u00e3o manteve a reprova\u00e7\u00e3o, mas Arouche n\u00e3o se deu por vencido e entrou com outro pedido para que a sua nota fosse recorrigida. Novamente, a desembargadora Sarney nomeou o juiz Cunha para substituir o juiz respons\u00e1vel por analisar o caso, como mostra o relat\u00f3rio do CNJ. Dessa vez, o pr\u00f3prio magistrado corrigiu as quest\u00f5es e concluiu que \u201ca nota do requerente deveria ser 5,00 (cinco) pontos\u201d. Tamb\u00e9m determinou nova an\u00e1lise da prova de t\u00edtulos e a inclus\u00e3o do candidato na rela\u00e7\u00e3o final de aprovados.<\/p>\n\n\n\n<p>Cunha destacou ainda que era \u201cdesnecess\u00e1ria remessa \u00e0 Superior Inst\u00e2ncia\u201d, no caso, os desembargadores do tribunal. Ou seja: a sua decis\u00e3o n\u00e3o deveria ser submetida \u00e0 an\u00e1lise de outros magistrados. Em entrevista por e-mail, o juiz admitiu que cometeu um erro de avalia\u00e7\u00e3o nessa decis\u00e3o, mas acredita que n\u00e3o tenha sido algo t\u00e3o grave a ponto de beneficiar Arouche indevidamente.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2020\/08\/cunha-1024x576.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90\" alt=\"cunha\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Em outubro de 2015, seis anos depois de divulgada a lista de aprovados no concurso, o processo foi conclu\u00eddo e Arouche conseguiu, enfim, o cargo que tanto queria. Mas ele teve pouco tempo de tranquilidade na nova fun\u00e7\u00e3o. Em fevereiro de 2016, a Associa\u00e7\u00e3o dos Titulares de Cart\u00f3rios do Maranh\u00e3o, a ATC, e a Associa\u00e7\u00e3o de Not\u00e1rios e Registradores, a Anoreg, contestaram a decis\u00e3o do juiz Cunha. Ele acabou afastado do cart\u00f3rio por decis\u00e3o do desembargador Lourival de Jesus Serejo Sousa, que dizia que n\u00e3o compete ao poder judici\u00e1rio \u201csubstituir banca examinadora para avaliar respostas dadas pelos candidatos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi nesse momento que a desembargadora Sarney agiu novamente em favor do ex-assessor. Dessa vez, n\u00e3o contou com intermedi\u00e1rios. Em abril de 2016, quando estava no plant\u00e3o judicial, ela concedeu a Arouche um mandado de seguran\u00e7a que lhe garantia novamente a administra\u00e7\u00e3o do cart\u00f3rio de Buriticupu. Essa a\u00e7\u00e3o, no entanto, foi indeferida por outro desembargador e, o afastamento, mantido.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao responder ao CNJ por que n\u00e3o se declarou suspeita para julgar o processo, j\u00e1 que Arouche havia sido seu assessor, a desembargadora alegou que esse fato n\u00e3o a impedia de atuar como magistrada no caso. A defesa, no entanto, n\u00e3o foi suficiente para o relator Humberto Martins, que votou em novembro de 2018 pela abertura de um Processo Administrativo Disciplinar contra a desembargadora Sarney e o juiz Cunha. Mas os magistrados n\u00e3o foram afastados e seguem ocupando as suas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Por e-mail, a desembargadora disse que teve apenas rela\u00e7\u00e3o de trabalho com o ex-assessor, negou que o tenha beneficiado ao conceder o mandado de seguran\u00e7a no seu plant\u00e3o judicial e afirmou que \u201cforam proferidas outras decis\u00f5es, que n\u00e3o por mim\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outubro de 2018, o caso de Arouche chegou \u00e0 Terceira C\u00e2mara C\u00edvel do tribunal do Maranh\u00e3o. Nessa inst\u00e2ncia, tr\u00eas magistrados analisaram o processo e ele ganhou a causa. Um desembargador e um juiz entenderam que o juiz Cunha atribuiu corretamente as notas. Apenas um desembargador discordou, destacando que Arouche identificou a sua prova ao colocar nomes de pessoas em uma das respostas. Mesmo que sejam usados nomes fict\u00edcios, esse tipo de atitude provoca elimina\u00e7\u00e3o do candidato. Mas o desembargador foi voto vencido.<\/p><div class=\"kxntd69e0f247f3c81\" ><!--<a href=\"https:\/\/bit.ly\/3QdrqTZ\" target=\"_blank\">\n<img src=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mobile-geral.gif\"\/><a\/>--><\/div><style type=\"text\/css\">\r\n.kxntd69e0f247f3c81 {\r\ntext-align: center;\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 1201px) {\r\n.kxntd69e0f247f3c81 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 993px) and (max-width: 1200px) {\r\n.kxntd69e0f247f3c81 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 769px) and (max-width: 992px) {\r\n.kxntd69e0f247f3c81 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 768px) and (max-width: 768px) {\r\n.kxntd69e0f247f3c81 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (max-width: 767px) {\r\n.kxntd69e0f247f3c81 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n<\/style>\r\n<div class=\"fnntw69e0f247f3c62\" ><!--<a href=\"https:\/\/bit.ly\/3QdrqTZ\" target=\"_blank\">\n<img src=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/desktop-geral.gif\"\/><a\/>--><\/div><style type=\"text\/css\">\r\n.fnntw69e0f247f3c62 {\r\ntext-align: center;\nmargin-bottom: 1em;\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 1201px) {\r\n.fnntw69e0f247f3c62 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 993px) and (max-width: 1200px) {\r\n.fnntw69e0f247f3c62 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 769px) and (max-width: 992px) {\r\n.fnntw69e0f247f3c62 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 768px) and (max-width: 768px) {\r\n.fnntw69e0f247f3c62 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (max-width: 767px) {\r\n.fnntw69e0f247f3c62 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n<\/style>\r\n\n\n\n\n<p>O Estado do Maranh\u00e3o, a Anoreg e a ATC recorreram ao Superior Tribunal de Justi\u00e7a contra a decis\u00e3o, mas no dia 25 de agosto deste ano o ministro Gurgel de Faria&nbsp;<a href=\"https:\/\/ww2.stj.jus.br\/processo\/dj\/documento\/mediado\/?tipo_documento=documento&amp;componente=MON&amp;sequencial=114294179&amp;tipo_documento=documento&amp;num_registro=201903539290&amp;data=20200827&amp;tipo=0&amp;formato=PDF\">negou o pedido<\/a>. Mesmo assim, Arouche segue afastado at\u00e9 que outra a\u00e7\u00e3o no Supremo Tribunal Federal seja julgada. Enquanto isso n\u00e3o acontece, o administrador interino Denisson Oliveira Barbosa toma conta do cart\u00f3rio de Buriticupu. N\u00e3o que isso signifique que Arouche se manteve longe do cart\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentei contato com esse administrador pelo telefone e e-mail oficial do cart\u00f3rio. Curiosamente, recebi como resposta pelo e-mail do cart\u00f3rio, sem assinatura, o n\u00famero do celular do advogado de Arouche, Johnny Sanches Vale. O administrador interino sequer me respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o advogado do assessor, Arouche \u00e9 que \u00e9 a v\u00edtima da hist\u00f3ria. Vale me disse que seu cliente tem colecionado \u201csucessivas vit\u00f3rias\u201d na justi\u00e7a, primeiro com a decis\u00e3o do juiz Cunha e depois dos magistrados da Terceira C\u00e2mara C\u00edvel. \u201cN\u00e3o acredito que possa existir um compl\u00f4 de todo mundo a favor do Mauro [Arouche]. Se tem algu\u00e9m prejudicado em toda essa hist\u00f3ria \u00e9 ele, que passou no concurso e foi retirado da serventia sem remunera\u00e7\u00e3o, sem nada.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2020\/08\/Nelma-Sarney1-1000x662.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90\" alt=\"Nelma-Sarney1\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Falei tamb\u00e9m com o juiz Cunha. Por e-mail, ele me disse que foi designado pela desembargadora Sarney para responder pela 5\u00aa Vara da Fazenda P\u00fablica de S\u00e3o Lu\u00eds devido \u00e0 sua agilidade e produtividade. \u00c0 \u00e9poca, segundo Cunha, a unidade tinha muitos processos aguardando julgamento e n\u00e3o havia uma ordem formal para atendimento da demanda, \u201co que obrigava o juiz a despachar o acervo de acordo com os pedidos de prefer\u00eancia feitos por advogados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Cunha admite que a defesa de Arouche o procurou e pediu prefer\u00eancia no processo, mas diz que julgou o caso prontamente como fazia, segundo ele, \u201cpor todos os advogados que me procuraram nesse per\u00edodo\u201d. O magistrado nega que tenha atendido a um pedido especial da desembargadora Sarney para beneficiar Arouche e tamb\u00e9m diz que apenas o conhece porque ele trabalhava no tribunal, mas n\u00e3o tem amizade. \u201cA minha decis\u00e3o foi correta. Esse conflito de liminares envolveu injustamente meu nome\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A desembargadora tamb\u00e9m negou que seja amiga do juiz Cunha e de Arouche e disse que como corregedora, atuou \u201cestritamente dentro dos princ\u00edpios e regras legais\u201d para evitar que uma unidade judici\u00e1ria ficasse desassistida. \u201cO magistrado em quest\u00e3o, na condi\u00e7\u00e3o de auxiliar, foi designado para atuar por um per\u00edodo de 60 dias \u2013 onde proferiu centenas de senten\u00e7as e outros atos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Situa\u00e7\u00f5es como a da desembargadora Sarney e do juiz Cunha, em que ju\u00edzes s\u00e3o investigados por suspeita de parcialidade, s\u00e3o mais comuns do que se costuma imaginar \u2013 e do que determina a lei. Para se ter uma ideia, a maior parte dos casos denunciados ao CNJ desde a sua cria\u00e7\u00e3o, em 2005, \u00e9 de quebra de imparcialidade, como descobri ao levantar todas as investiga\u00e7\u00f5es j\u00e1 realizadas pelo conselho.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a diretora da ONG Transpar\u00eancia Brasil Juliana Sakai, casos assim mostram que os \u00f3rg\u00e3os de controle n\u00e3o t\u00eam sido eficazes em investigar e punir desvios na magistratura e restringem a aplica\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a real. \u201cA partir do momento em que as institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o coniventes, elas legitimam esse tipo de atua\u00e7\u00e3o de quem usa o poder de forma irregular\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<h3>Outras nomea\u00e7\u00f5es suspeitas<\/h3>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de Arouche, dezenas de nomea\u00e7\u00f5es para cart\u00f3rios, feitas pela desembargadora Sarney quando ela era corregedora do tribunal, tamb\u00e9m foram questionadas. Em 2015, a Anoreg e a ATC denunciaram ao CNJ irregularidades nas indica\u00e7\u00f5es de 18 interinos ou interventores para administrar 25 cart\u00f3rios no estado. Alguns deles, distantes at\u00e9 mais de 700 km entre si, passaram a ser administrados pela mesma pessoa.<br>Interino \u00e9 quem administra cart\u00f3rios que n\u00e3o possuem titulares e interventores s\u00e3o pessoas designadas pelo tribunal para ocupar a vaga quando os administradores s\u00e3o afastados por decis\u00e3o judicial ou administrativa. Diferente dos titulares, interinos e interventores n\u00e3o ficam com todo o lucro do cart\u00f3rio, mas a remunera\u00e7\u00e3o deles pode chegar a 90,25% do sal\u00e1rio de um ministro do Supremo Tribunal Federal, que atualmente \u00e9 de R$ 39,2 mil \u2013 uma pequena fortuna no interior do Maranh\u00e3o, estado em que a renda m\u00e9dia mensal \u00e9 de R$ 636, segundo dados do IBGE.<\/p>\n\n\n\n<p>Na den\u00fancia feita ao CNJ, as associa\u00e7\u00f5es reclamavam que a desembargadora Sarney, ent\u00e3o corregedora, deixou de nomear como interinos os substitutos legais e chegou a indicar pessoas que sequer eram titulares em outra serventia, como exige o pr\u00f3prio C\u00f3digo de Normas da Corregedoria Geral do Tribunal do Maranh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as nomea\u00e7\u00f5es questionadas, duas envolvem parentes de outros magistrados. Em mar\u00e7o de 2014, a desembargadora Sarney designou a ex-esposa do desembargador Jos\u00e9 de Ribamar, Kamilly Borsoi Barros, para ser interventora em um dos cart\u00f3rios de Imperatriz, o 3\u00ba Of\u00edcio Extrajudicial, cuja arrecada\u00e7\u00e3o naquele ano foi de R$ 1,2 milh\u00e3o. At\u00e9 ent\u00e3o, Barros respondia pela pequena serventia de Brejo de Areia, cuja arrecada\u00e7\u00e3o anual n\u00e3o chegou a R$ 70 mil em 2014. Sarney jamais explicou o motivo do afastamento do titular do cart\u00f3rio em Imperatriz, como apontou o conselheiro do CNJ Carlos Levanhagem. At\u00e9 hoje, Barros administra os cart\u00f3rios das duas cidades, que ficam distantes mais de 400 km entre si.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Ana Carolina Ter\u00e7as de Almeida Abdalla, filha do juiz Jos\u00e9 Eul\u00e1lio Figueiredo de Almeida e nora do desembargador Megbel Abdala Tanus Ferreira \u2013 aposentado compulsoriamente por&nbsp;<a href=\"https:\/\/theintercept.com\/2019\/09\/29\/juizes-desembargadores-venda-sentencas\/\">suspeita de vendas de senten\u00e7as<\/a>&nbsp;\u2013 foi designada pela desembargadora Sarney como interina do 1\u00ba Of\u00edcio Extrajudicial de Chapadinha em abril de 2014. At\u00e9 ent\u00e3o, ela era titular no cart\u00f3rio do munic\u00edpio de Governador Newton Belo, cuja arrecada\u00e7\u00e3o anual havia sido de R$ 37 mil naquele ano. J\u00e1 o cart\u00f3rio de Chapadinha arrecadou mais de R$ 600 mil no mesmo per\u00edodo. Essa nomea\u00e7\u00e3o, no entanto, acabou revogada pelo CNJ.<\/p>\n\n\n\n<p>A den\u00fancia foi analisada pelo conselheiro do CNJ Arnaldo Hossepian, que determinou ao todo seis anula\u00e7\u00f5es de nomea\u00e7\u00f5es feitas pela desembargadora e mandou a corregedoria definir pol\u00edticas de transpar\u00eancia na escolha de interventores e interinos. Terminados os seus dois anos como corregedora, Sarney voltou ao seu posto regular como desembargadora. Arouche, Barros, Abdalla e todas as outras pessoas beneficiadas pelas nomea\u00e7\u00f5es da desembargadora Sarney podem dizer: nada \u00e9 melhor do que ter uma ajudinha do judici\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Nayara Felizardo, The Intercept<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com os amigos \u201ccertos\u201d, um assessor jur\u00eddico pode virar at\u00e9 tabeli\u00e3o de cart\u00f3rio, como aconteceu em Buriticupu, uma pequena cidade do interior do Maranh\u00e3o. Jos\u00e9 Mauro Barbosa Arouche foi assessor no gabinete da desembargadora do Tribunal de Justi\u00e7a do Maranh\u00e3o Nelma Celeste Sousa Silva Sarney entre 2001 e 2014. A proximidade da magistrada \u2013 cunhada<br \/><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/2020\/09\/09\/desembargadora-e-investigada-por-fazer-ginastica-para-garantir-cartorio-a-ex-assessor\/\">Mais&#8230;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12777"}],"collection":[{"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12777"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12777\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12803,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12777\/revisions\/12803"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12777"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12777"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12777"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}