{"id":11708,"date":"2020-07-24T11:11:28","date_gmt":"2020-07-24T14:11:28","guid":{"rendered":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/?p=11708"},"modified":"2020-07-24T11:11:28","modified_gmt":"2020-07-24T14:11:28","slug":"republica-de-canalhas-reflexoes-de-antonio-carlos-de-almeida-castro-o-kakay","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/2020\/07\/24\/republica-de-canalhas-reflexoes-de-antonio-carlos-de-almeida-castro-o-kakay\/","title":{"rendered":"Rep\u00fablica de canalhas \u2013 reflex\u00f5es de Ant\u00f4nio Carlos de Almeida Castro, o Kakay"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" width=\"780\" height=\"490\" src=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/kakay.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11709\" srcset=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/kakay.jpeg 780w, https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/kakay-300x188.jpeg 300w, https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/kakay-768x482.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 780px) 100vw, 780px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00c9 interessante notar que, vez ou outra, o tema do foro especial por prerrogativa de fun\u00e7\u00e3o se apresenta, ainda que de maneira indireta. Um exemplo claro de tentativa canhestra de burl\u00e1-lo se deu agora com o Delta quando ele optou por&nbsp;<a href=\"https:\/\/poder360.com.br\/lava-jato\/pgr-ve-investigacao-camuflada-da-forca-tarefa-sobre-maia-e-alcolumbre\/\">escrever uma peti\u00e7\u00e3o, de maneira a escamotear os nomes completos<\/a>&nbsp;dos presidentes do Senado e da C\u00e2mara. O intuito de n\u00e3o demonstrar que as autoridades citadas tinham foro no Supremo ficou mais evidente pela desculpa esfarrapada no sentido de que os nomes n\u00e3o cabiam no papel. O grande Elio Gaspari exp\u00f4s o rid\u00edculo do argumento:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c(\u2026) foram apanhados pelo rep\u00f3rter Leonardo Cavalcanti chamando Rodrigo Maia de \u201cRodrigo Felinto\u201d e David Alcolumbre de \u201cDavid Samuel\u201d numa planilha oficial. Esse golpe \u00e9 velho, usado por delegados e procuradores que tentam confundir ju\u00edzes. Justificando-se, a equipe do doutor Martinazzo disse que os nomes completos n\u00e3o cabiam no espa\u00e7o. Contem outra, doutores. Pode-se fazer tudo pela Lava Jato, menos papel de bobo. O nome Rodrigo Felinto tem 15 batidas, Rodrigo Maia cabe em doze.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o que eu sempre afirmei: esta turma da Lava Jato possui um excelente setor estruturado de marketing, pois juridicamente s\u00e3o bem fraquinhos. Eticamente, inexistentes. E, se forem expostos, certamente v\u00e3o dar vexame se explicando. Eles me lembram o velho rabugento Bukowski: \u201c<em>Posso viver sem a grande maioria das pessoas. Elas n\u00e3o me completam, me esvaziam<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que a maior de todas as falsidades se deu, in\u00fameras vezes, pelo ent\u00e3o verdadeiro chefe da for\u00e7a-tarefa de Curitiba, o ex-juiz, ao burlar incont\u00e1veis vezes o princ\u00edpio do juiz natural e se autodeclarar juiz universal, com compet\u00eancia e jurisdi\u00e7\u00e3o em todo o territ\u00f3rio nacional. Juiz de todas as causas em que o interesse pol\u00edtico do grupo que representava estivesse presente. Juiz&nbsp;<em>ad hoc<\/em>. Muito mais do que juiz parcial. Juiz com defini\u00e7\u00e3o de interesse espec\u00edfico. O que estivesse no radar do projeto pol\u00edtico do grupo passava a ser de compet\u00eancia restrita do magistrado. Essa \u00e9 uma das import\u00e2ncias de se discutir a dimens\u00e3o do que representa o juiz natural. N\u00e3o apenas por ser um requisito constitucional, mas tamb\u00e9m por poder afastar os interesses pol\u00edticos de grupos que n\u00e3o se intimidam em instrumentalizar o Minist\u00e9rio P\u00fablico e o Poder Judici\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a espetaculariza\u00e7\u00e3o do processo penal, grupos inescrupulosos viram, na seara do Judici\u00e1rio, um meio f\u00e9rtil para fortalecer projetos de poder. A discuss\u00e3o sobre o juiz natural sempre foi relevante no direito brasileiro, especialmente quando ocorre tentativa clara de burlar os Tribunais Superiores. Um caso cl\u00e1ssico foi o do ex-senador Dem\u00f3stenes Torres. O Minist\u00e9rio P\u00fablico, a pol\u00edcia e um juiz de 1\u00ba Grau tentaram burlar a compet\u00eancia constitucional do Supremo Tribunal \u2013afinal, Dem\u00f3stenes era senador\u2013 e fizeram uma investiga\u00e7\u00e3o sem poderes para tanto. \u00c0 \u00e9poca, eu era advogado do senador e me vi obrigado a me socorrer ao Supremo Tribunal, com um HC, e, por unanimidade, retirar dos processos todas as provas obtidas de maneira ilegal, com artimanhas e desprezo \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o. O resultado foi a anula\u00e7\u00e3o, ao final, de todos os procedimentos e processos contra o senador.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo da vida, advoguei para 4 presidentes da Rep\u00fablica, mais de 90 governadores, dezenas de senadores, ministros, deputados e sempre os alertei, todos eles, que eu era contra o foro especial por prerrogativa de fun\u00e7\u00e3o. E mais, que eu entendia ser o foro uma \u201carmadilha\u201d contra os r\u00e9us. Menos \u00e0 \u00e9poca em que nem sequer havia os processos, as den\u00fancias, mas essa \u00e9 outra hist\u00f3ria\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre afirmei que, em um sistema republicano, o foro especial por prerrogativa de fun\u00e7\u00e3o deveria ser extinto. O caso conhecido como mensal\u00e3o \u00e9 uma prova cabal do risco que ele representa. O processo foi julgado pelo plen\u00e1rio do Supremo e, antes do espet\u00e1culo midi\u00e1tico da Lava Jato, era, at\u00e9 ent\u00e3o, o maior sucesso de m\u00eddia no Judici\u00e1rio brasileiro. Com uma massiva campanha pela condena\u00e7\u00e3o, com uma m\u00eddia opressiva e determinada, o julgamento foi se afastando de qualquer rigor t\u00e9cnico.<\/p><div class=\"pexcj69de9372c8e44\" ><!--<a href=\"https:\/\/bit.ly\/3QdrqTZ\" target=\"_blank\">\n<img src=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mobile-geral.gif\"\/><a\/>--><\/div><style type=\"text\/css\">\r\n.pexcj69de9372c8e44 {\r\ntext-align: center;\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 1201px) {\r\n.pexcj69de9372c8e44 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 993px) and (max-width: 1200px) {\r\n.pexcj69de9372c8e44 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 769px) and (max-width: 992px) {\r\n.pexcj69de9372c8e44 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 768px) and (max-width: 768px) {\r\n.pexcj69de9372c8e44 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (max-width: 767px) {\r\n.pexcj69de9372c8e44 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n<\/style>\r\n<div class=\"zhygx69de9372c8e22\" ><!--<a href=\"https:\/\/bit.ly\/3QdrqTZ\" target=\"_blank\">\n<img src=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/desktop-geral.gif\"\/><a\/>--><\/div><style type=\"text\/css\">\r\n.zhygx69de9372c8e22 {\r\ntext-align: center;\nmargin-bottom: 1em;\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 1201px) {\r\n.zhygx69de9372c8e22 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 993px) and (max-width: 1200px) {\r\n.zhygx69de9372c8e22 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 769px) and (max-width: 992px) {\r\n.zhygx69de9372c8e22 {\r\ndisplay: block;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (min-width: 768px) and (max-width: 768px) {\r\n.zhygx69de9372c8e22 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n@media screen and (max-width: 767px) {\r\n.zhygx69de9372c8e22 {\r\ndisplay: none;\r\n}\r\n}\r\n<\/style>\r\n\n\n\n\n<p>Para conseguirem as condena\u00e7\u00f5es, os ministros fizeram uma vergonhosa subleitura da teoria do dom\u00ednio do fato. Alguns por n\u00e3o dominarem a teoria; outros por uma defini\u00e7\u00e3o pr\u00e9via de condena\u00e7\u00e3o. Fico \u00e0 vontade para analisar, pois meus clientes, Zilmar e Duda Mendon\u00e7a, foram absolvidos. Ainda que, como resultado da excessiva exposi\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, mesmo absolvidos, inocentados, eles, por anos, continuaram no imagin\u00e1rio popular como \u201cmensaleiros\u201d, ou seja, foram condenados. Mas, pelo menos, mesmo condenados pela opini\u00e3o p\u00fablica, livraram-se soltos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os efetivamente condenados n\u00e3o tiveram como recorrer exatamente em raz\u00e3o do foro \u201cprivilegiado\u201d. Julgamento midi\u00e1tico em \u00fanica e \u00faltima Inst\u00e2ncia, tudo que n\u00e3o pode ocorrer em um Estado que se pretenda democr\u00e1tico. Numa Rep\u00fablica, n\u00e3o h\u00e1 justificativa para foros diferentes, porque a regra \u00e9 que somos iguais, todos, em direitos e deveres. E a expectativa \u00e9 um Judici\u00e1rio independente, r\u00e1pido, aparelhado para aplicar e fazer cumprir a Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Proponho uma reflex\u00e3o sobre a hip\u00f3tese de manter o foro no Supremo Tribunal somente para os presidentes dos Tr\u00eas Poderes e o procurador-geral da Rep\u00fablica. As demais autoridades que hoje det\u00eam o foro especial por prerrogativa de fun\u00e7\u00e3o seriam julgadas por um juiz de 1\u00ba Grau, com uma relevante inova\u00e7\u00e3o: toda e qualquer medida restritiva de direito (pris\u00e3o, busca e apreens\u00e3o, afastamento do cargo e quebra de sigilos, enfim, o afastamento de qualquer garantia constitucional) s\u00f3 poderia ser feita por um colegiado de 3 ou 5 desembargadores. O processo seguiria o rito normal com um juiz de 1\u00aa Inst\u00e2ncia que julgaria o caso, mas as medidas restritivas teriam que ser colegiadas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 salutar um juiz apressado mandar prender o ministro da Fazenda, o presidente do Banco Central ou uma autoridade cuja deten\u00e7\u00e3o abale para muito mais das hostes individuais. Esta \u00e9 uma discuss\u00e3o que cabe fazer neste pa\u00eds onde a velha e a surrada frase \u201csabe com quem est\u00e1 falando\u201d pula de boca em boca. Ora est\u00e1 na boca de um desembargador; ora, na de um encastelado dos Jardins ou da zona sul, que ainda se sentem melhores do que os demais cidad\u00e3os. Como se existissem cidad\u00e3os de 1\u00aa e de 2\u00aa classe. \u00c9 contra esta prepot\u00eancia, esta pobreza de esp\u00edrito, esta forma de racismo enraizado, este autoritarismo enrustido que eu proponho esta reflex\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, quando uma \u201cautoridade\u201d ou um idiota qualquer que se esconde atr\u00e1s de uma montanha de dinheiro ou de poder sacar um argumento de falsa autoridade, n\u00f3s poderemos responder: \u201cN\u00e3o sabemos quem \u00e9 voc\u00ea atr\u00e1s desta arrog\u00e2ncia, mas aqui \u00e9 a Rep\u00fablica\u201d. Parafraseando o cartunista Rafael Corr\u00eaa: \u201c<em>E agora, o que faremos? Poesia, esses canalhas n\u00e3o suportam poesia<\/em>\u201d. Talvez com uma dose de humildade, de humanidade, at\u00e9 mesmo estes pobres de esp\u00edrito da autointitulada Rep\u00fablica de Curitiba possam entender o que \u00e9 Rep\u00fablica, numa vis\u00e3o humanista e igualit\u00e1ria. Pode n\u00e3o significar nada, mas pode ser um come\u00e7o. Como ensina a nossa Clarisse Lispector: \u201c<em>E, antes de aprender a ser livre, tudo eu aguentava, s\u00f3 para n\u00e3o ser livre<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Poder 360<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cPoderoso para mim n\u00e3o \u00e9 aquele que descobre ouro.<br \/>\nPara mim poderoso \u00e9 aquele que descobre as insignific\u00e2ncias (do mundo e as nossas).\u201d\u201cS\u00f3 uso as palavras para compor meus sil\u00eancios\u201d<br \/>\nManoel de Barros<br \/><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/2020\/07\/24\/republica-de-canalhas-reflexoes-de-antonio-carlos-de-almeida-castro-o-kakay\/\">Mais&#8230;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":11709,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11708"}],"collection":[{"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11708"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11708\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11710,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11708\/revisions\/11710"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11709"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11708"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11708"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/justicapotiguar.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11708"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}